Edição especial esta semana. A atualidade de finais de junho está tranquila — coisas do verão —, por isso aproveitamos para fazer algo diferente: um balanço do primeiro semestre de 2026. Seis meses, catorze edições do Weekly, e uns quantos momentos marcantes no mundo da impressão 3D que vale a pena pôr em perspetiva. Analisamos os cinco grandes temas que marcaram o ano, e terminamos com as três notícias fresquinhas desta semana. Fica confortável. 🔥
📚 Especial Mr Resin
🎨 1. A guerra do multicolor dominou tudo

Se tivéssemos de resumir 2026 numa palavra, seria cor. Todos os fabricantes se lançaram a resolver o mesmo problema — imprimir em várias cores sem desperdiçar meio rolo de filamento — e cada um o atacou à sua maneira. A Bambu Lab abriu o fogo com a A2L, a sua bedslinger gigante a 379€ com módulo de corte tipo Cricut. A Creality respondeu com o KliTek, com troca de bico em 5 segundos. A Snapmaker integrou a mistura Full Spectrum de forma nativa no seu slicer, tendo ainda contratado o programador que a criou.
E as coisas aceleraram na reta final: a Flashforge lançou a Creator 5 com o tool-changer FlashSwap de 4 cabeças, a Prusa ativou finalmente o INDX com troca de 8 bicos e apenas 13 mg de resíduo por mudança, e a HeyGears fez uma estreia surpreendente ao anunciar uma impressora de secretária que imprime a cores completas por jato de tinta UV. Três arquiteturas distintas — purga otimizada, tool-changer, material jetting — a competir pelo mesmo objetivo: deixar para trás a peça de uma só cor.
O que significa isto para ti, que imprimes em resina? Por agora, a revolução da cor continua a ser território FDM. Em resina, o multicolor continua a ser o Santo Graal por conquistar. Mas a pressão é tão grande que é apenas uma questão de tempo até chegar à tina. Vamos estar atentos.
🔓 Aberto vs fechado
🔓 2. A batalha pela alma do software

A novela do ano. Começou quando a Bambu Lab enviou uma carta legal ao programador de um fork do OrcaSlicer e a coisa aqueceu. A comunidade reagiu com um boicote, surgiram figuras como Louis Rossmann e Jeff Geerling, e durante semanas foi o tema que dividiu o setor: os que defendem os ecossistemas fechados e convenientes contra os que defendem o código aberto e o controlo por parte do utilizador.
O interessante é a forma como cada lado resolveu a situação. Enquanto a Bambu apertava o cerco, a Snapmaker fez exatamente o oposto: contratou o programador da mistura de cores e integrou o seu trabalho de forma aberta. Em segundo plano, a fronteira legal deslocou-se do software para o hardware: a guerra de patentes entre a Stratasys e a Bambu Lab por tecnologias tão básicas como as camas aquecidas. O mercado dividiu-se claramente em dois: ecossistemas fechados de alto desempenho face a ecossistemas abertos impulsionados pela comunidade. Este ano havia que escolher um lado.
🧪 Resina mais segura
🧪 3. A resina começou a levar a sério a segurança e a sustentabilidade

E este é o tema que mais nos toca na Mr Resin. 2026 foi o ano em que a indústria da resina começou a levar a sério duas questões: a saúde de quem imprime e o impacto ambiental. Em materiais sustentáveis, vimos a resina reciclável da Universidade de Yokohama, que se funde e reimprime dez vezes, e a espanhola 3Dresyn com a sua resina circular que se «desfaz» com calor.
Em segurança química, o marco foi a Prusa reformular a sua Prusament Resin Model+ para eliminar o ACMO, o TPO e o Bisfenol A — precisamente os químicos que a comunidade vinha a apontar há algum tempo —. Tudo isto se liga ao guia de segurança da AmeraLabs que abrimos na nossa primeira edição. A mensagem do semestre é clara: a resina do futuro será mais segura de manusear e menos poluente. E isso é uma excelente notícia para todos. Entretanto, não te esqueças: luvas de nitrilo, ventilação adequada e cura correta continuam a ser obrigatórios com qualquer resina atual.
🔬 Bioimpressão
🔬 4. A bioimpressão chegou a roçar a ficção científica
Pura «ciência WTF», a nossa secção favorita para sonhar. Este semestre a fronteira da bioimpressão avançou a um ritmo que impressiona. Investigadores coreanos imprimiram uma córnea humana viável. A EPFL suíça imprimiu uma orelha humana com luz holográfica, 70 vezes mais eficiente do que os métodos anteriores. E sem sair de Espanha, a Universidade de Alicante apresentou uma prótese modular impressa em 3D.
A mesma tecnologia básica que tens na tua secretária — construir camada a camada, curando com luz — aplicada à área médica está a mudar vidas de forma concreta. Não é algo que vás fazer em casa, mas é um lembrete precioso de até onde chega aquilo que nos apaixona.
⚖️ Regulamentação
⚖️ 5. A regulação começou a mostrar-se
O tema incómodo que vai crescer nos próximos anos. Vimos como a Califórnia aprovava em comissão a lei AB2047 sobre «software de bloqueio» para impressoras, e como a vaga se estendia a Nova Iorque e Washington. A preocupação de fundo, segundo a Electronic Frontier Foundation, é que definições demasiado abrangentes acabem por complicar a vida às impressoras de uso geral, software livre e makerspaces, sem resolver o problema que dizem combater.
Afeta-nos em Portugal? Diretamente, ainda não. Mas o que se passa nos EUA costuma acabar por influenciar a Europa. É um assunto em aberto que continuaremos a acompanhar de perto.
📰 E além disso, isto é o que há de novo esta semana
Ser semana de balanço não significa que o mundo pare. Estas são as três novidades que surgiram nos últimos dias:
🎲 Miniaturas
🎲 A Games Workshop esconde as novas minis de 40K na caixa mais barata

A Games Workshop revelou no seu Sunday Preview os novos Starter Sets da 11ª Edição de Warhammer 40.000, que entram em pré-venda este sábado. Há três caixas de iniciação em três níveis: desde o Starter Set completo em tamanho Combat Patrol, passando pelas caixas «Getting Started» de uma única fação, até a um Introductory Set de 12 miniaturas. E aqui está o truque que a GW não pôs em letras de néon: as miniaturas novas da edição estão escondidas na caixa mais barata.
Com efeito, o novo tenente dos Space Marines e os novos Orkos (Nob e Boyz com lança-foguetes) estreiam-se primeiro no Introductory Set, e não na caixa principal. Uma jogada astuta para que até os veteranos mordam o isco de uma caixa de iniciação que, em teoria, não era pensada para eles. Além disso, inclui terreno de Armageddon já pintado de fábrica (28 peças) e três conjuntos de tintas. Para quem imprime terreno e proxies, uma nova edição é sempre temporada alta: aqui tens resina de detalhe, tintas e pincéis para a ocasião. Ler os detalhes no Spikey Bits →
🧪 Materiais
🧪 A Bambu Lab lança o PLA Pure, um filamento pensado para casas com crianças

Continuando o tema da segurança dos materiais, a Bambu Lab apresentou o PLA Pure, um filamento reformulado com apenas cinco ingredientes, todos verificados de acordo com a norma europeia EU 10/2011 (a que regula os plásticos em contacto com alimentos). O ponto-chave: elimina os modificadores de impacto e os agentes de fluidez normalmente utilizados, obrigando a Bambu a reconstruir a química de raiz.
O resultado, segundo a marca, é menos stringing mesmo sem secar o filamento, melhores acabamentos e — o mais importante — certificação GREENGUARD UL 2904 de baixas emissões de partículas e compostos voláteis. Nos seus testes, os níveis de PM2.5 e PM10 durante uma impressão de quatro horas ficaram abaixo do que se regista numa cozinha normal. Custa 24,99 $ com bobine. Uma nota honesta: as certificações aplicam-se ao filamento, não automaticamente a cada objeto impresso. Ainda assim, é mais um sinal de que a segurança está a tornar-se um argumento de venda. Ler a cobertura na 3D Printing Industry →
🤖 Ciência WTF
🤖 Imprimem circuitos eletrónicos diretamente sobre tecido vivo
E fechamos com uma notícia científica que arrepia. Uma equipa de investigadores publicou na revista Science um método para imprimir circuitos eletrónicos diretamente sobre tecido vivo. A técnica utiliza impressão 3D baseada em luz para processar hidrogéis «mecanoluminescentes» sobre o tecido, com um material que contém microrganismos bioluminescentes (dinoflagelados) e que continua a ser compatível com células vivas durante a impressão.
Traduzindo: é um passo enorme em direção à eletrónica integrada no corpo — sensores, interfaces e dispositivos médicos impressos diretamente sobre tecido biológico. Segue a linha da bioimpressão que temos acompanhado ao longo do semestre. A fronteira entre o vivo e o impresso esbate-se um pouco mais a cada mês. Mais ciência de impressão 3D na ScienceDaily →
💬 O nosso balanço do semestre
Seis meses dão para muito. Se algo ficou claro é que a impressão 3D vive um momento de ouro: mais cor, mais segura, mais sustentável e mais acessível do que nunca. A corrida ao multicolor impulsionou a inovação a um ritmo frenético, a comunidade defendeu o código aberto com unhas e dentes, a resina tornou-se mais limpa, e a ciência tocou a magia. E em pano de fundo, a regulamentação lembra-nos que isto já não é um nicho de entusiastas, mas uma tecnologia que o mundo leva a sério.
Para o maker português, nunca houve melhor altura para imprimir, pintar e criar. Obrigado por nos acompanharem nestas catorze edições. Continuamos na linha da frente mais um semestre: resina, filamentos, tintas, ferramentas gratuitas, e esta newsletter todas as segundas-feiras. Até ao segundo semestre. 💪
❓ Perguntas frequentes do semestre
Já existe uma impressora de resina multicolor em 2026?
Não propriamente. A revolução do multicolor de 2026 ocorreu sobretudo na impressão FDM (filamento), com sistemas como o AMS da Bambu Lab, os tool-changers da Prusa e da Flashforge, ou o sistema Full Spectrum da Snapmaker. Na impressão em resina (SLA/DLP/LCD), o multicolor continua a ser um desafio por resolver. O exemplo mais próximo é a HeyGears G1X, anunciada em junho, mas utiliza injeção de tinta UV — não resina de tina — e ainda não foi testada de forma independente.
Qual é a resina mais segura para imprimir em casa?
A tendência de 2026 aponta para resinas reformuladas sem os químicos mais problemáticos (ACMO, TPO, Bisfenol A), como a Prusament Resin Model+. Ainda assim, qualquer resina líquida não curada continua a ser tóxica: o essencial é usar luvas de nitrilo, ventilação adequada, e curar bem as peças e os resíduos. A resina mais segura é aquela que se manipula com as precauções corretas.
Vale a pena esperar pelas novas impressoras multicolor ou comprar uma de resina agora?
Depende do que imprimes. Para miniaturas com o máximo de detalhe, uma impressora de resina MSLA continua a ser a melhor opção qualidade-preço em 2026, e assim continuará durante algum tempo. As novidades multicolor são sobretudo para FDM e para quem priorize a cor em detrimento do detalhe fino. Para minis, terreno e figuras, a resina é a rainha.
Quando chegará a regulamentação de impressão 3D a Portugal ou à Europa?
Por enquanto não existe legislação específica em curso em Portugal sobre «software de bloqueio» como a que está a ser tramitada em vários estados dos EUA (Califórnia, Nova Iorque, Washington). É um tema em desenvolvimento e por resolver, mas convém acompanhá-lo, porque as tendências regulatórias norte-americanas acabam muitas vezes por influenciar a União Europeia com o tempo.